Era uma vez um menino muito especial chamado Albano, tinha oito anos, era baixo e franzino, com o cabelo escuro aos caracóis, olhos verdes e arregalados, e com o nariz pequeno e rodeado de sardas que conferia um ar de traquina.
Vivia numa pequena e esquecida aldeia, nos confins de um país perdido no tempo. As montanhas que a rodeavam, cobertas de neve eram tão altas que, durante o inverno a aldeia não via um único raio de sol.
A casa era em pedra, pequena e fria, cheia de frinchas por onde o gélido vento trespassava, desafiando a enorme lareira em brasa, num duelo entre o quente e o frio.
Não havia electricidade, as noites eram passadas à luz da candeia num incómodo silêncio, os pais do Albano pouco falavam, amargurados e exaustos depois de um dia de trabalho, nos íngremes campos de cultivo das encostas montanhosas.
Contavam-se pelos dedos os habitantes desta aldeia, todos com mais de quarenta anos, os mais novos há muito tempo que abandonaram a terra em busca de uma vida mais colorida.
O Albano era a única criança, ele nunca saio da aldeia nem sequer conheceu outros meninos, não ia à escola, não sabia ler nem escrever, apenas sabia contar até vinte, que era o número de cabras que os pais tinham.
Era ele quem as levava para pastar, corria montes e vales em busca do melhor pasto, sempre na companhia do seu cão, o fiel amigo a quem ele chamava de rafeiro.
Era um menino que vivia rodeado pela solidão, sonhador criava ilusões na cabeça, falava com as arvores e com as flores, na esperança que lhe respondessem. Tinha uma maneira própria de falar e de sentir as emoções, como praticamente não falava em casa, quando estava sozinho comunicava com os seus amigos imaginários, de uma maneira especial, com as frases a saíam-lhe sempre a rimar.
Albano tinha uma rotina de vida tão linear, que todos os dias era a repetição do dia anterior.
Saía de casa ao raiar do dia, levava as cabras para o monte e ficava por lá brincando com as pedras, gostava de fazer pirâmides, desafiar a gravidade e construir autênticos arranha-céus.
– Rafeiro vai pela direita, eu fico deste lado á espreita. – Dizia ele ao cão, numa táctica para controlar as cabras.
Por vezes o canino não correspondia, já era velhote e passava mais tempo deitado do que a correr. Nessas alturas Albano usava a técnica da bolacha torrada, ia ao bolço do casaco e sacava do delicioso mino, que a sua mãe fazia nas tardes de domingo.
Juntava o polegar e o indicador, colocava na boca e soprava bem forte, saindo o som agudo que o Rafeiro bem conhecia. Num ápice arrebitava as orelhas e como num truque de magia, enchia-se de força e corria em direcção ao Albano.
– Vamos come meu amiguinho, agora já sabes, quero ajuda a levar as cabras para o ninho. - Diz ele ao cão num tom meigo.
O dia-a-dia do Albano pouco ou nada saía do vulgar, tinha sempre a mesma rotina, mas algo ia acontecer que mudaria a pacatez do menino aldeão.
continua...
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